No sul do Ceará, rochas de mais de 100 milhões de anos guardam répteis voadores tão bem preservados que alguns mostram até pele, músculos e o pigmento de suas cristas. A Chapada do Araripe é um dos lugares mais importantes do mundo para estudar os pterossauros.
Neste artigo, você vai entender por que esses fósseis são tão especiais, conhecer algumas das espécies descritas ali e saber onde ver esse patrimônio de perto.
O que são os pterossauros
Os pterossauros eram répteis voadores que viveram na mesma época dos dinossauros, mas não eram dinossauros. A asa era uma membrana de pele sustentada por um dedo muito comprido, o chamado dedo da asa.
O corpo era coberto por filamentos finos, chamados picnofibras. Os do Araripe viveram no período Cretáceo, e muitas das espécies dali tinham cristas na cabeça.
Onde fica
A Chapada do Araripe é um planalto alongado na divisa do Ceará com Pernambuco e o Piauí. Ela faz parte da Bacia do Araripe, que, segundo uma revisão científica publicada em 2025 nos Anais da Academia Brasileira de Ciências, é a maior e a mais complexa das bacias sedimentares do interior do Nordeste, com cerca de 9 mil km².
Os pterossauros aparecem principalmente em duas camadas de rocha:
- Formação Crato: calcários em lâminas formados no fundo de um grande lago. As águas profundas tinham pouco oxigênio, o que afastava os animais que se alimentam de carcaças e ajudou a preservar esqueletos inteiros.
- Formação Romualdo: um pouco mais nova, formada em um ambiente de lagunas com influência do mar. Ali, os fósseis ficam dentro de nódulos de calcário, que muitas vezes guardam os ossos em três dimensões, sem achatar.
Uma datação feita em dente de um peixe fóssil da Formação Romualdo indicou cerca de 110 milhões de anos, com margem de 7,4 milhões para mais ou para menos, informa a revisão de 2025.
Por que o Araripe é tão importante
Fósseis em 3D, com pele e músculos
Em outros depósitos importantes, como o Cambridge Greensand, na Inglaterra, os pterossauros aparecem em pedaços muito incompletos. O Araripe é conhecido no mundo todo pelo número de exemplares com preservação excepcional, muitos em três dimensões, diz o artigo de 2013 sobre o Tropeognathus. A revisão de 2025 afirma que essa preservação serviu de base para estudos pioneiros sobre a anatomia e a biologia desses animais.
Alguns fósseis guardam tecidos moles. Um exemplar da Formação Romualdo mantém pele e músculos do ombro em três dimensões. Na Formação Crato, já foram encontrados pedaços da membrana da asa, bainhas das garras e solas dos pés com pele escamosa.
Até o pigmento da crista
O Tupandactylus imperator, da Formação Crato, tinha uma crista enorme, com uma parte de osso e uma grande parte de tecido mole, feita de fibras e coberta de pele. Pesquisadores encontraram na crista estruturas microscópicas que guardam melanina e conseguiram identificar quimicamente esse pigmento. As picnofibras do mesmo animal têm formas variadas, algumas ramificadas.
Muitas espécies num lugar só
O primeiro pterossauro do Araripe foi descrito em 1971 pelo paleontólogo Llewellyn Ivor Price, a partir de ossos de asa dentro de um pequeno nódulo de calcário. Desde então, os pesquisadores propuseram dezenas de espécies na bacia.
O número exato varia conforme a fonte. Em 2013, um artigo liderado por Alexander Kellner, do Museu Nacional, contava 27 espécies formalmente descritas, com a validade de algumas ainda em discussão. A revisão de 2025 reavaliou todos os nomes propostos e concluiu que parte deles não tem base suficiente para ser mantida como espécie separada.
Para os autores da revisão, a bacia é “um dos depósitos mais celebrados e importantes do mundo” para entender a diversidade e a biologia dos pterossauros.
Algumas espécies descritas no Araripe
- Anhanguera blittersdorffi (1985): de bico comprido e dentes, faz parte de um grupo que provavelmente comia peixes.
- Tapejara wellnhoferi (1989): de crânio forte e músculos da mandíbula bem desenvolvidos. Pesquisadores levantam a hipótese de que ele comia frutos ou sementes duras.
- Tupandactylus imperator (1997): o dono da crista gigante de tecido mole, da Formação Crato.
- Thalassodromeus sethi (2002): tinha uma grande crista de osso e mandíbulas afiadas como lâminas de tesoura. O fóssil veio provavelmente de perto de Santana do Cariri.
- Tropeognathus **cf. T. mesembrinus:** um exemplar descrito em 2013 teve a envergadura estimada em mais de 8 metros. Segundo o estudo, é o maior réptil voador já encontrado em Gondwana, o antigo supercontinente do sul, e o maior pterossauro com dentes do mundo.
- Kariridraco dianae (2021): a espécie nova mais recente da bacia, de acordo com a revisão de 2025. O fóssil está no Museu de Paleontologia de Santana do Cariri.
O Geopark Araripe
Para proteger esse patrimônio, o Ceará criou o Geopark Araripe, que entrou para a Rede Global de Geoparques em 2006. Segundo a Universidade Regional do Cariri (URCA), que administra o território, foi o primeiro geoparque das Américas reconhecido pela UNESCO.
O Geopark tem 3.789 km² em seis municípios: Crato, Juazeiro do Norte, Barbalha, Missão Velha, Nova Olinda e Santana do Cariri. São onze geossítios abertos à visitação, com valor geológico, paleontológico, arqueológico e histórico. Um deles é o Parque dos Pterossauros, em Santana do Cariri, onde a URCA prevê escavações paleontológicas todos os anos.
O Museu de Paleontologia de Santana do Cariri
O Museu de Paleontologia Plácido Cidade Nuvens fica no centro de Santana do Cariri. Ele foi criado por lei municipal em 1985, inaugurado em 1988 e hoje é ligado à URCA. Segundo o plano museológico da universidade, recebe em média 2 mil visitantes por mês.
O acervo reúne troncos petrificados, plantas, insetos, aranhas, escorpiões, peixes, tartarugas, crocodilos, dinossauros e pterossauros. O museu nasceu com uma missão clara: frear o tráfico de fósseis da região.
O problema do tráfico de fósseis
No Brasil, os fósseis são bens da União e fazem parte do patrimônio cultural, conforme a Constituição. Mesmo assim, por décadas, muitas peças do Araripe saíram do país de forma ilegal. A revisão de 2025 aponta que o número de exemplares-tipo de pterossauros do Araripe guardados em instituições brasileiras é pequeno perto dos que estão no exterior.
A situação começou a mudar. O museu de Santana do Cariri tem papel central na repatriação de fósseis, como a do dinossauro Ubirajara jubatus. Em seu relatório de 2022 à Rede Global de Geoparques, o Geopark informou mais de mil exemplares devolvidos à região.
Perguntas frequentes
Pterossauro é dinossauro?
Não. Os pterossauros eram répteis voadores, parentes dos dinossauros, mas formavam um grupo separado.
Quantas espécies de pterossauros foram descritas no Araripe?
As estimativas variam. Em 2013, eram 27 espécies formalmente descritas; a revisão de 2025 reavaliou os nomes e considera que nem todos são espécies válidas.
Qual é a idade dos fósseis?
Eles são do período Cretáceo. Uma datação da Formação Romualdo indicou cerca de 110 milhões de anos.
Posso visitar os fósseis?
Sim. O Museu de Paleontologia Plácido Cidade Nuvens, em Santana do Cariri, expõe fósseis da bacia, e o Geopark Araripe tem geossítios abertos à visitação.
Posso levar um fóssil para casa?
Não. Fósseis são bens da União, e a coleta e o transporte dependem de autorização do Estado.
Gostou de conhecer os pterossauros do Araripe? Veja também outras curiosidades da pré-história aqui no blog.
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Fontes
- Pinheiro et al. (2025) — Cretaceous Pterosaurs of the Araripe Basin: A Comprehensive Taxonomic Update and Paleobiological Insights. Anais da Academia Brasileira de Ciências
- Kellner et al. (2013) — The largest flying reptile from Gondwana: a new specimen of Tropeognathus cf. T. mesembrinus Wellnhofer, 1987. Anais da Academia Brasileira de Ciências
- URCA — Araripe Geoparque Mundial da UNESCO: planejamento (2023)
- Global Geoparks Network — Araripe UNESCO Global Geopark: Annual Report 2022
- URCA — Plano Museológico do Museu de Paleontologia Plácido Cidade Nuvens (2019–2029)



