Aquele risco branco que um avião deixa no céu parece fumaça, mas não é. Ele é uma nuvem fina, feita principalmente de cristais de gelo. Em alguns dias, some em segundos; em outros, fica no céu por horas e se espalha.
Neste artigo, você vai entender como esse rastro se forma, por que ele dura tempos tão diferentes e o que os cientistas dizem sobre a teoria dos “chemtrails”.
O que é o rastro branco dos aviões
O nome técnico é trilha de condensação, ou esteira de condensação. Em inglês, o termo é contrail, junção de condensation (condensação) e trail (trilha).
Segundo uma ficha técnica preparada em conjunto pela Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA), pela FAA, pela NASA e pela NOAA, essas trilhas são nuvens em forma de linha, compostas principalmente de água na forma de cristais de gelo. A mesma ficha lembra que elas são um efeito normal da aviação a jato desde os primeiros voos.
O Departamento de Controle do Espaço Aéreo (DECEA), da Força Aérea Brasileira, descreve o fenômeno do mesmo jeito: uma fina nuvem de cristais de gelo, parecida com as nuvens altas do tipo cirro.
Onde ele aparece
As trilhas aparecem, em geral, na altitude de cruzeiro, onde o ar é muito frio.
Segundo o DECEA, no Brasil a temperatura do lado de fora do avião em voo de cruzeiro costuma ficar entre -40 °C e -50 °C, dependendo da latitude e das condições do tempo. O Serviço Nacional de Meteorologia dos Estados Unidos (NWS) também explica que, nessas altitudes, o ar costuma ser mais frio que -40 °C.
Como o rastro se forma
- O motor solta ar quente e úmido. Ao queimar o combustível, o motor a jato produz vapor de água. Segundo o DECEA, o ar que sai das turbinas passa de 300 °C.
- Esse ar encontra o ar gelado da altitude. A mistura esfria muito rápido, e o vapor se condensa em gotinhas ao redor de pequenas partículas.
- As gotinhas congelam. Como o ar está muito frio, elas viram cristais de gelo quase na hora.
De acordo com a ficha da EPA, a trilha costuma ficar visível a uma distância de mais ou menos uma envergadura de asa atrás do avião.
O rastro que sai da ponta das asas
Existe também um segundo tipo de trilha, mais rara. Segundo a ficha da EPA e o NWS, quando o avião passa por ar muito úmido, a queda de pressão em volta da asa resfria o ar e forma uma trilha curta na ponta das asas ou nas hélices. Nesse caso, toda a água vem da própria atmosfera.
Por que às vezes some rápido e às vezes fica
A resposta está na umidade do ar lá em cima.
- Ar seco: os cristais de gelo evaporam logo. A trilha fica curta e some em segundos ou minutos. Segundo a ficha da EPA, isso acontece quando a umidade está abaixo do necessário para o gelo se manter.
- Ar úmido: os cristais não evaporam. Pelo contrário, continuam crescendo, porque puxam água do ar em volta. A trilha fica longa e persiste.
Segundo a ficha da EPA, as trilhas persistentes podem durar horas e crescer até vários quilômetros de largura e 200 a 400 metros de altura. Um detalhe curioso: o motor fornece só uma pequena parte da água dessas trilhas. A maior parte já estava no ar, no caminho do avião.
A NASA informa que satélites já registraram grupos de trilhas que duraram até 14 horas, embora a maioria tenha ficado visível por quatro a seis horas.
Por que elas se espalham
As trilhas persistentes se espalham por causa da turbulência deixada pelo avião, das diferenças na velocidade do vento ao longo da rota e, possivelmente, do aquecimento do Sol, segundo a ficha da EPA. Com o tempo, podem ficar parecidas com nuvens cirros naturais, a ponto de não dar mais para diferenciar.
Por isso, o mesmo avião pode deixar rastros bem diferentes em dias diferentes: o que muda é o ar.
O que a ciência diz sobre os “chemtrails”
A teoria dos “chemtrails” afirma que os rastros duradouros seriam produtos químicos espalhados de propósito, em segredo, por aviões.
Em 2016, pesquisadores da Carnegie Institution for Science e da Universidade da Califórnia em Irvine publicaram um estudo na revista científica Environmental Research Letters para avaliar essa ideia. Eles consultaram 77 especialistas: químicos da atmosfera que estudam trilhas de condensação e geoquímicos que estudam a deposição de poeira e poluição.
O resultado: 76 dos 77 cientistas, ou 98,7%, disseram que não encontraram nenhuma evidência de um programa secreto de pulverização em larga escala. Segundo o estudo, os dados usados como “prova” pelos defensores da teoria podem ser explicados pela física e pela química já conhecidas das trilhas de condensação e das partículas no ar.
A ficha da EPA, da NASA, da NOAA e da FAA foi escrita justamente para responder a perguntas do público sobre essas trilhas. Ela afirma que as trilhas são formadas principalmente por água e não representam risco direto à saúde. Os cristais de gelo não chegam ao chão: caem devagar e evaporam no ar mais quente das camadas baixas.
Isso não quer dizer que os aviões não poluam. Os motores também emitem gás carbônico, óxidos de nitrogênio e fuligem, segundo a mesma ficha. Mas o rastro branco em si é gelo, não um produto químico espalhado de propósito.
Outras curiosidades
- Mais nuvens no céu: segundo a NASA, as trilhas de condensação criam uma cobertura extra de nuvens do tipo cirro.
- Efeito pequeno, mas incerto: em texto da NASA, o cientista Patrick Minnis afirma que as estimativas indicam um pequeno efeito de aquecimento das trilhas, mas que o tamanho desse efeito ainda é bastante incerto.
- Previsão do tempo no céu: segundo o NWS, quando as trilhas somem rápido ou nem se formam, o tempo tende a seguir bom; quando ficam no céu, pode vir uma mudança no tempo.
- Cor muda com o Sol: segundo o DECEA, a cor da trilha pode variar conforme a posição do Sol.
Perguntas frequentes
O rastro branco dos aviões é fumaça?
Não. É uma nuvem fina, feita principalmente de cristais de gelo, que se forma quando o vapor quente do motor encontra o ar gelado da altitude.
Por que alguns rastros somem rápido e outros ficam?
Depende da umidade do ar onde o avião voa. Com ar seco, o gelo evapora logo. Com ar úmido, os cristais crescem e a trilha dura horas.
Todo avião deixa rastro?
Não. A trilha só aparece quando o ar está frio e úmido o suficiente. O mesmo avião pode deixar rastro em um dia e não deixar em outro.
Os “chemtrails” existem?
Não há evidência científica disso. Em um estudo de 2016, 76 de 77 especialistas disseram não ter encontrado nenhuma prova de um programa secreto de pulverização.
O rastro dos aviões faz mal à saúde?
Segundo a EPA, a NASA, a NOAA e a FAA, as trilhas são feitas principalmente de água e não representam risco direto à saúde.
Gostou de entender o rastro branco dos aviões? Veja também como um avião consegue voar aqui no blog.
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Fontes
- EPA, FAA, NASA e NOAA — Aircraft Contrails Factsheet (2000)
- DECEA, Força Aérea Brasileira — O que são esses “riscos brancos” que saem dos aviões no céu?
- NASA Earth Observatory — The Evolution of a Contrail (2012)
- NWS/NOAA — Clouds and Contrails
- Shearer, West, Caldeira e Davis (2016) — Quantifying expert consensus against the existence of a secret, large-scale atmospheric spraying program. Environmental Research Letters




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