Todo ano, uma parte enorme do Pantanal vira água. Campos secos se transformam em lagoas, e os rios transbordam por quilômetros. O curioso é que a cheia mais forte não chega junto com as chuvas: no sul do Pantanal, ela pode aparecer quatro ou cinco meses depois.
Neste artigo, você vai entender o que é o Pantanal, por que ele alaga todo ano e por que a água demora tanto para chegar e para ir embora.
O que é o Pantanal
O Pantanal é a maior planície alagável do mundo, segundo o Instituto Nacional de Pesquisa do Pantanal (INPP), ligado ao governo federal. A Agência FAPESP, ao divulgar um estudo da Embrapa Pantanal e da Unesp, também o descreve como a maior planície inundável do planeta.
É uma região baixa e quase plana, cercada por terras mais altas, os planaltos. Os rios que nascem nesses planaltos descem para a planície e formam um labirinto de rios, lagoas, baías, corixos e vazantes.
O Pantanal é reconhecido pela Constituição brasileira como patrimônio nacional. Segundo o INPP, ele também tem os títulos de Patrimônio Natural da Humanidade e de Reserva da Biosfera, dados pela UNESCO. Em 2000, a UNESCO incluiu na lista do Patrimônio Mundial a Área de Conservação do Pantanal, um conjunto de áreas protegidas dentro do bioma.
Qual é o tamanho do Pantanal
As estimativas variam conforme o que se mede. A Embrapa Pantanal já usou cerca de 140 mil quilômetros quadrados para a parte brasileira. A Agência FAPESP, em 2022, citou 150 mil quilômetros quadrados, cerca de 1,8% do território nacional.
Onde fica
O Pantanal fica no centro da América do Sul, dentro da bacia do Alto Paraguai. No Brasil, ocupa parte de Mato Grosso e de Mato Grosso do Sul. Segundo a Embrapa Pantanal, cerca de 65% da parte brasileira está em Mato Grosso do Sul e 35% em Mato Grosso. A planície continua no norte do Paraguai e no leste da Bolívia, segundo o INPP.
O principal rio é o Paraguai. Ele recebe afluentes como o Cuiabá, o São Lourenço, o Itiquira, o Taquari, o Aquidauana, o Negro e o Miranda.
Por que o Pantanal inunda todo ano
A água vem de fora da planície
A chuva que cai sobre o próprio Pantanal não explica a cheia. Segundo pesquisadoras da Embrapa Pantanal, a quantidade de chuva que cai na planície é quase igual à que volta para o ar pela evaporação e pela transpiração das plantas. A água que se acumula nas áreas alagadas vem, sobretudo, dos rios que descem dos planaltos ao redor, onde ficam as nascentes, em áreas de cerrado.
Ou seja: chove forte no verão nos planaltos, os rios enchem e levam essa água para a planície.
Uma planície quase sem inclinação
Ao chegar lá embaixo, a água encontra um terreno quase plano. Segundo a Embrapa Pantanal, a planície desce só 1 a 2 centímetros por quilômetro no sentido norte-sul e de 6 a 12 centímetros por quilômetro no sentido leste-oeste.
Com tão pouco desnível, os rios correm devagar, fazem curvas e transbordam. A água se espalha pelos campos em vez de seguir rápido para longe.
A planície funciona como uma esponja
A Embrapa Pantanal compara as grandes áreas de alagamento a reservatórios. Elas guardam a água e a soltam aos poucos. Por isso existe um atraso entre a chuva e a cheia.
Nos planaltos, os rios respondem rápido: choveu, eles sobem. Já no Pantanal, o rio Paraguai atinge os níveis mais altos na época da seca. Segundo o estudo divulgado pela Agência FAPESP, no sul do Pantanal as maiores inundações chegam quatro a cinco meses depois da época de mais chuva.
Um pulso por ano
Os pesquisadores chamam esse ciclo de pulso de inundação. A cada ano, o rio Paraguai tem uma única fase de subida, a enchente, e uma única fase de descida, a vazante. Para a Embrapa Pantanal, esse pulso é o que faz o ecossistema funcionar e mantém a sua biodiversidade.
A régua que mede a cheia
Em Ladário, no Mato Grosso do Sul, ao lado de Corumbá, a Marinha do Brasil mede o nível do rio Paraguai desde 1900. É a série de medições mais longa da bacia, e por ali passa cerca de 81% da vazão média de água que sai do território brasileiro, segundo a Embrapa Pantanal.
Essa régua serve para classificar os anos. Quando o rio chega a 4 metros ou mais em Ladário, o ano é considerado de cheia no Pantanal. Abaixo disso, é ano de seca.
Um estudo da Embrapa com os dados de 1900 a 1994 mostrou o padrão:
- o rio sobe, em média, de dezembro a maio e desce de julho a novembro;
- 86% dos picos de cheia aconteceram entre maio e julho, e 41% só em junho;
- o maior nível do período foi de 6,64 metros, em abril de 1988;
- nesse período, o rio nunca esteve acima de 4 metros em novembro e dezembro.
Quando a cheia falha
O pulso muda de um ano para o outro. Há anos de cheia grande e anos de quase nenhuma inundação. Segundo a Embrapa, houve uma longa seca entre 1962 e 1973, seguida de cerca de 20 anos de cheias, até 1993.
Os últimos anos foram de pouca água. Em 2024, o rio Paraguai chegou a 69 centímetros abaixo do zero da régua de Ladário, o nível mais baixo da lista de mínimas anuais, segundo o Serviço Geológico do Brasil. A marca anterior era de 1964, com 61 centímetros abaixo do zero. O número negativo não significa rio sem água: o zero da régua é só a referência escolhida quando ela foi instalada.
O estudo divulgado pela Agência FAPESP em 2022 mostrou que as chuvas de verão ficaram mais intensas e que os dias secos no outono e no inverno aumentaram. O mesmo texto lembra que a região teve um número sem precedentes de incêndios, a maioria provocada pela ação humana.
Outras curiosidades
- Cheia que mata peixes: no início da enchente, pode acontecer a “dequada”, um fenômeno que, dependendo da força, mata toneladas de peixes, segundo a Embrapa Pantanal.
- Muitos ambientes em um: segundo o INPP, o Pantanal tem 75 classes de macro-hábitats, como campos, matas, lagoas e áreas alagadas.
- Encontro de biomas: a vegetação pantaneira recebe influência da Amazônia, do Cerrado, do Chaco e da Mata Atlântica, segundo a Embrapa.
- Navegação: no período estudado pela Embrapa, a navegação no rio Paraguai foi mais fácil de março a junho e mais difícil de setembro a janeiro, quando o rio fica baixo.
- Subida lenta: no ciclo 2007/2008, o rio Paraguai levou 221 dias para ir do nível mais baixo, em novembro, ao pico do ano, em junho, segundo a Embrapa Pantanal.
Perguntas frequentes
O Pantanal é a maior planície alagável do mundo?
Sim. O Instituto Nacional de Pesquisa do Pantanal e a Agência FAPESP o descrevem assim.
Por que o Pantanal alaga todo ano?
Porque a chuva de verão nos planaltos enche os rios, que descem para uma planície quase sem inclinação. A água se espalha e demora a escoar.
Em que época o Pantanal fica cheio?
Depende da região. Em Ladário, os picos de cheia costumam ocorrer entre maio e julho, depois do fim das chuvas.
Quais estados têm Pantanal?
Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. A planície continua no Paraguai e na Bolívia.
O Pantanal está secando?
Os últimos anos tiveram pouca água, e 2024 teve o nível mais baixo da série de Ladário, segundo o Serviço Geológico do Brasil. O estudo divulgado pela Agência FAPESP aponta chuvas de verão mais intensas e mais dias secos no outono e no inverno.
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Fontes
- Instituto Nacional de Pesquisa do Pantanal (INPP) — Pantanal: maior planície alagável e patrimônio natural da humanidade (2025)
- Agência FAPESP — Crise climática e pressão antrópica estão levando o Pantanal ao desequilíbrio (2022)
- Embrapa Pantanal — Oliveira e Calheiros (2000), PELD: Programa Ecológico de Longa Duração dos recursos hídricos do Pantanal
- Embrapa Pantanal — Comastri Filho (2008), Pantanal: características ambientais e ciclos econômicos
- Embrapa Pantanal — Soares et al. (2008), Monitoramento do comportamento do rio Paraguai no Pantanal Sul-Mato-Grossense 2007/2008
- Embrapa Pantanal — Galdino e Clarke (1995), Levantamento e estatística descritiva dos níveis hidrométricos do rio Paraguai em Ladário, MS: 1900-1994
- Serviço Geológico do Brasil — Boletim de monitoramento hidrológico da bacia do rio Paraguai (30/10/2024)
- UNESCO — Pantanal Conservation Area




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