O pirarucu vive na água, tem brânquias e mesmo assim precisa de ar. De tempos em tempos, ele sobe à superfície, solta o ar velho, engole ar novo e volta para o fundo. Sem isso, ele morre.
Neste artigo, você vai entender como essa respiração funciona e como ela virou a base de um dos trabalhos de conservação mais conhecidos da Amazônia.
O que é o pirarucu
O pirarucu (Arapaima gigas) é um peixe da Amazônia. Segundo o Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, é o maior peixe de escamas de água doce do mundo.
As medidas máximas variam um pouco entre as fontes. A cartilha do Instituto Mamirauá fala em até 3 metros e até 200 quilos. Em reportagem da Agência FAPESP, um pesquisador da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) cita até 3 metros e mais de 200 quilos. Em resumo, os maiores pirarucus chegam a cerca de 3 metros e 200 quilos.
O nome vem de línguas indígenas. Segundo o Instituto Mamirauá, “pira” quer dizer peixe, e “urucu” é um fruto de sementes vermelhas.
Onde vive
O pirarucu vive na bacia do Amazonas. Ele é comum nos lagos das áreas de várzea, as planícies que alagam todo ano com a cheia dos rios.
É nesses lagos que acontece boa parte do manejo do pirarucu, como o da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, no Amazonas.
Como o pirarucu respira ar
Brânquias que não dão conta
O pirarucu tem dois tipos de respiração: pelas brânquias, como os outros peixes, e pelo ar. A cartilha do Instituto Mamirauá explica que as brânquias não conseguem tirar da água todo o oxigênio de que ele precisa. Por isso, a respiração aérea é obrigatória.
Uma bexiga que funciona como pulmão
Muitos peixes têm bexiga natatória, um órgão cheio de gás que ajuda a controlar a flutuação. No pirarucu, esse órgão também funciona como pulmão. Ele guarda o ar e participa das trocas gasosas.
Quando sobe, o peixe solta o gás carbônico e, em seguida, absorve o oxigênio. Os pescadores chamam esse movimento de “boiada”.
A cada quantos minutos ele sobe
Em situações normais, segundo o Instituto Mamirauá, o pirarucu vem à superfície em intervalos de 5 a 15 minutos. Quanto maior o peixe, mais tempo ele consegue ficar submerso, mas mesmo os maiores sobem em até 20 minutos quando não estão sendo perturbados.
Um peixe que pode se afogar
Como depende do ar, o pirarucu corre um risco estranho para um peixe: o de se afogar. Segundo o pesquisador da UFSCar ouvido pela Agência FAPESP, se o pirarucu fica só com as brânquias por mais de meia hora, em média, ele morre asfixiado.
A respiração que ajuda a contar os peixes
A boiada fez nascer um método curioso de pesquisa. Pescadores experientes conseguem contar quantos pirarucus há em um lago só observando o momento em que eles sobem para respirar.
Funciona assim, de acordo com a cartilha do Instituto Mamirauá:
- o contador observa uma área de no máximo 2 hectares por 20 minutos;
- só entram na conta os pirarucus maiores que 1 metro;
- pelo jeito da boiada, ele separa os jovens, de 1 metro a 1,49 metro, dos adultos, a partir de 1,50 metro.
O método foi validado em um estudo de Leandro Castello publicado em 2004. As contagens dos pescadores tiveram correlação de 0,98 com as estimativas feitas pelo método científico de marcação e recaptura. Em outras palavras, os números foram quase iguais.
O Instituto Mamirauá forma contadores desde 2000. Para ser aprovado, o pescador precisa acertar o número de peixes com margem de erro de até 30%, para mais ou para menos.
O manejo que trouxe o pirarucu de volta
A contagem é a base do manejo participativo do pirarucu. Com o número de adultos em mãos, define-se a cota de pesca do ano: no máximo 30% dos adultos podem ser pescados. Os outros 70% ficam no lago para garantir a reprodução.
Segundo o Instituto Mamirauá, desde 1999 o manejo ajudou a aumentar em cerca de 620% o estoque natural de pirarucu nas áreas manejadas da reserva.
Outras curiosidades
- Muitos contadores: até 2019, cerca de 180 pescadores tinham feito o curso de contagem do Instituto Mamirauá, e cerca de 100 foram aprovados.
- Nome colorido: o “urucu” do nome lembra a cor avermelhada das sementes do urucum.
- Dupla respiração: ele usa as brânquias e o ar ao mesmo tempo, e não um ou outro.
- Saber antigo: o método de contagem nasceu do conhecimento dos pescadores e só depois foi confirmado pela ciência.
- Conservação com renda: o manejo permite pescar e vender o pirarucu sem acabar com os peixes do lago.
Perguntas frequentes
O pirarucu respira fora da água?
Ele precisa respirar ar, mas faz isso subindo à superfície. A bexiga natatória funciona como pulmão e guarda o ar que ele engole.
De quanto em quanto tempo o pirarucu sobe para respirar?
Em situações normais, a cada 5 a 15 minutos. Os maiores podem ficar até cerca de 20 minutos submersos sem perturbação.
O pirarucu pode morrer afogado?
Pode. Se ficar sem acesso ao ar por mais de meia hora, em média, ele morre asfixiado.
Qual é o tamanho do pirarucu?
Os maiores chegam a cerca de 3 metros e 200 quilos. As fontes variam um pouco: algumas falam em mais de 200 quilos.
Como se conta pirarucu?
Pescadores treinados observam o momento em que o peixe sobe para respirar e estimam quantos há em cada área do lago.
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Fontes
- Instituto Mamirauá — Contagem e censo populacional de pirarucu (cartilha, 2013)
- Instituto Mamirauá — Programa de Manejo de Pesca
- Instituto Mamirauá — Certificação de contadores de pirarucu (2019)
- Castello (2004) — A method to count pirarucu Arapaima gigas: fishers, assessment, and management. North American Journal of Fisheries Management
- Agência FAPESP — Peixes aéreos (2005)



